Terá de ser assim: cru. A verdade é nua; sem temperos nem doçuras. Vem de rompante. Rouba silêncios; completa vazios; sacia dúvidas... as dos outros. Por mais que me acompanhem as pessoas que me amam; por mais que me dêem palavras fortes, há decisões que são minhas; existem momentos de introspecção que apenas a mim pertencem: a coragem a fervilhar nas veias. Não é tanto o escolher caminhos mas sim o exacto momento em que se decide fazer à estrada. Terei eu escolhido sempre o mesmo caminho...? Serão os caminhos de cabra sempre o meu chão? Seria bem mais fácil viver a minha condição de mulher sozinha; sem dramas nem batalhas; sem lágrimas e sem medos... sem ter de passar pelo assumir do que não se assume: a sexualidade. Não é mais do que despir a pele para regozijo dos outros. Não vale a pena sofrer com a dura realidade... terá de ser assim: cru. Como se fala de sexo com rodeios? Como digo que amo uma mulher sem o dizer? Como explico por outras palavras aquilo que já dói dizer em estado puro? Dores incutidas. A mim não me basta assumir uma relação com outra pessoa; não é tão simples assim; ninguém se contenta com "apenas" isso. Exigem-me bem mais do que isso. Pedem-me que me mostre para além do visível. Assim escolhe a sociedade; assim ditaram as regras do "bom comportamento". Apenas nós temos de nos assumir duas vezes no amor: assumimos a nossa sexualidade e apresentamos quem trazemos connosco para amanhã... os outros, assumem apenas relações. Vida fácil, não? "São apenas vidas... distintas", já me confessaram... Pois bem, caras diferenças... É por estas e por outras que a palavra "orgulho" por vezes nos fica tão bem. Soubessem os outros o seu significado. Soubessem os outros o quanto custa a liberdade que não dão; o quanto "nos mata" ter essa reles distinção. Soubessem os outros o valor da liberdade que têm e o tempo que não têm de perder para a viver. Rogo-lhes um dia num mundo ao contrário. Bastar-lhes-ia por uma vida minha. Seria o suficiente para provarem do seu próprio veneno. "São apenas vidas... distintas"? Não. São duras realidades por assumir. Falta-me a palavra... Sim, que falta me fazes... liberdade.
4 de Fevereiro de 2008
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3 comentários:
Acho q não tenho palavras para o q escreves-te,portanto,nada direi.Apenas deixo aqui o meu comentário ao teu texto tão bem escrito como real.
Sim... parece sempre fácil aos outros... não basta termos já de viver com o nosso silêncio... não basta já aquilo a "fervilhar" dentro de nós... às vezes apetece vestir a T-shirt... cores berrantes... sou gay, so what?... vergonhosamente, a minha profissão explicita: não aos homos... portugal do séc.XXI... eis a nossa sociedade... mas, por outras vezes, apetece fechar numa concha... o "deixem-me em paz"... o "que vos importa quem amo?"...
acho que o pior é entenderem que há amor... não sei... mas percebo e partilho essa tua falta de palavras... é assim... coiso...
A liberdade... no meu "relvadinho interior". É por aqui que a vivo, o meu amor... toda essa liberdade impressa num sentir.Mostro o seu rosto a todos sem nomes lhe chamar.O "meu sentir" espelha-o nos olhos de cada vez que me elogia quando me vê. Isto é o meu ser livre... sentir.
(bonito o que escreves, triste mas... girl blue! :)
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