Lembro-me que naquele dia os pés estavam mais pesados no caminho até casa. Os passos eram mais lentos. Tinha passado o dia em silêncio. Regressava das aulas. Uma madrugada demasiado recente tinha sido mais negra do que a noite; tinha procurado a morte. Tinha 17 anos. Abri a mochila verde tropa assinada por todos os colegas do liceu e tirei a chave que levei à porta. Estava escuro em casa. Entrei e encontrei a minha mãe e a minha tia que me aguardavam na sala. Ainda com a mochila na mão, a minha mãe lançou-me sem espera a pergunta:
- Tentaste o suicídio...? Porquê...?
A minha tia, sentada no sofá, tinha os olhos brilhantes e olhava-me com um estranho ar de pena. Estavam claramente à minha espera.
- Quem te contou...? Questionei a minha mãe.
- O A. saiu daqui há pouco... Eu pedi-lhe que viesse falar comigo... Agora diz-me porquê...?
Não me contive. As lágrimas caíam-me pelo rosto e os "porquês" de tudo o que me atormentava há tanto tempo dançavam na minha cabeça, como a musica de um disco riscado e gasto pelas horas exaustivas de repetição. Tinha um turbilhão de emoções dentro de mim. Tinha a negação dos meus desejos e o medo que descobrissem um amor que carregava comigo há dois anos. Tinha demasiado peso no peito. Tinha demasiadas horas de dor; demasiadas noites perdidas a escrever à luz da vela... porque acreditava que essa seria a única forma do meu amor ganhar vida: entre tinta e papel iluminado pela trémula luz dos amantes. Estava apaixonada.
Entre abraços e lágrimas tentavam arrancar-me o porquê da morte; o porquê do álcool; o porquê das palavras que haviam vasculhado nos meus diários; o porquê dos desenhos estranhos; o porquê da droga... Senti-me nua. Senti-me como se me arrancassem a roupa do corpo à força com a violência de lobos famintos... Senti-me em sangue. Senti-me sem nada. Senti-me com frio. Senti-me invadida. Senti medo. O medo de sempre... Queria os meus segredos de volta. Queria o meu mundo de novo fechado entre palavras metafóricas para que só eu as decifrasse. Era o meu amor proibido, só por isso já me bastava a dor.
- Estás apaixonada...?
- Sim...
- Fez-te mal...? Quem te fez mal...?
- Não... Ninguém...
Não tinha por onde fugir... Já não tinha onde me esconder... Nesse dia ganhei a vergonha de olhar nos olhos de quem me olhasse de frente. Sentia-me definhar... a cair da montanha que arduamente tentava escalar sozinha. Senti-me exposta...
- É uma mulher...?
- Sim...
Choros compulsivos. Perguntas que eu não sabia responder. Sonhos de uma mãe estilhaçados. Farrapos... Vergonha. Fugi para o meu quarto. Lá em cima ouvia o chorar de uma mãe outra vez criança com medo do escuro. Ouvia o soluçar entre palavras e o reconfortar vazio de forças da minha tia que lhe tentava acalmar a dor. Passaram-se horas... ou talvez instantes eternos. Desci finalmente as escadas cansada de tanto temer... Olhei a sala do outro lado da casa, agora repleta de família. Assisti ao meu velório. Engoli em seco. Ouvi a minha respiração e vi o desviar de olhares com censura ao verem-me ali. Atrevi-me a ficar, distante. A minha tia veio tentar reconfortar-me. Deu-me algumas palavras que me aqueceram um pouco. Partiram. Fiquei só. Fui de novo para o meu refúgio que agora me parecia tão cru. Subitamente alguém invade o quarto. Grita-me. Agarra-me. Esvazia a raiva, angustia e dor em mim...
- Faz as tuas malas e vai-te embora. Já não te reconheço como minha filha. Não consigo mais olhar para ti... Sai.
Peguei na minha mochila verde tropa e lá dentro guardei um walkman, o meu primeiro peluche de infância e pouco mais.
Quando me preparava para sair...
- Tudo o que levas e foi-te dado por mim fica nesta casa.
Levei um walkman. Tudo o mais ficou.
Foi o pior dia da minha vida. Neste dia tive de começar tudo de novo. Tive de reaprender a viver. Foi o início de duras batalhas que fui contornando umas vezes mal, outras vezes melhor... Passaram dez anos. Dez longos e árduos anos. As cicatrizes estão aqui, bem fundas no meu peito. Para aprender a viver; fechar algumas feridas e conquistar o meu espaço voltei-me para dentro de mim, novamente... Escondi de novo os sentimentos; reconstruí o meu mundo interior; construí novos segredos. Vivi de forma a que pudessem voltar a amar-me... Procurei sarar feridas, minhas e dos outros. Fomos vivendo devagar. Hoje preciso tentar falar... Preciso do amor sincero de mãe... Preciso que me ame como sou... Preciso que saiba que lhe quero bem, que a amo como sempre amei; que sei a dor que lhe inunda o peito; que a compreendo, que a quero ajudar a viver comigo sem medo... Cresci durante todo este tempo e aos poucos aprendi a lidar um pouco melhor com a dura realidade. Preciso dizer-lhe que esconder-lhe a minha felicidade é a minha maior tristeza...
Mãe... tenho um segredo para te contar... Vamos tentar de novo...?
(Continua um dia destes...)
7 de Janeiro de 2008
Flashback
postado cá fora por Girl Blue à(s) 14:55
etiquetas: coming out
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8 comentários:
Lindo texto, devias escrever mais vezes, aguardo a continuação ;)
Resta-me deixar um abraço cheio de força.
Tua dôr passada embora muito presente, faz-me pensar se valerá a pena assumir... Não bastará assumirmo-nos a nós próprias? Ou será esta a atitude disfarçada de convicção por um cobarde...? O que escreves tocou-me. Senti-me invadida pelo medo do segredo que guardo há 15 anos... O pavor da rejeição faz-me recuar e acobardar-me. Fico como estou desejando que não reparem em mim...
Belissimo Blog! Parabéns! Beijinho.
Olá,
Se já seguia este blog atentamente, depois deste texto vou passar a redobrar a atenção. Entretanto, tens uma nomeação lá na minha humilde casinha. Aparece para reclamar o prémio.
seu passado de dor, acabou com certeza,
2008 será um ano de recomeços, e de perdões,
uma trilha nova em sua frente já se abre,
seu texto já me diz isso,,,,
beijos solidários,,,,
mineira
virtualolhar
conheçi seu blog hj, e espero poder voltar.....
Olá.
Li o teu texto "Flashback" e agora compreendo alguns dos teus posts num determinado local.
Acredita que nestes 10 anos que passaram, todas as dificuldades porque passaste fizeram de ti mais forte.
Cresceste.
Vais ver que um dia, a "dor" da tua mãe, vai atenuar-se e ainda que não te compreenda, irá aceitar-te de novo.
Tem fé.
Um beijo muito grande
angelsoul
Uma amiga enviou-me um email com o seu link e vim espreitar.
Fiquei arrepiada e emocionada, é triste ter que passar estas fases, mas dá para sentir que tem nuita força para ultrapassar essa e todas as adversidades que lhe forem aparecendo.
Fez com que eu meditasse e até me arrependesse de algumas opções que tomei.
Excelente post ;-)
...AS pedras no caminho, são para ser recolhidas e guardadas, pois um dia irás construir um castelo e aí sim, tudo voltará a normalidade...!!
Acho que deves tentar todas as vezes que sejam necessarias, até conseguires. Um dia ela cederá....
Um abraço
sei muito bem do que falas...comigo tb já passaram 10 anos...e há coisas q não se esqueçem por muito q o tempo passe... e há abraços q por vezes chegam tarde demais...
um sol muito grande p ti
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