28 de Agosto de 2008

Palavras mistas

Tenho pensado o que fazer com este meu pequeno lugar. Não o queria efémero, como tudo o que de bom semeio na minha vida. O tempo tem-me mostrado que os caminhos que percorremos, esses sim, efémeros, são feitos por nós: ao sabor dos ventos que sopramos; dos sonhos que inventamos e sobretudo da coragem que temos para os pintar nos dias. A minha vida mudou. Mudou porque sonhei; porque quis sonhar; porque tive coragem de pintar os meus dias com as cores que inventei. Hoje tenho uma vida diferente: um amor como nunca pensei existir; um lar à nossa espera; uma família que nos apoia; um trabalho melhor; memórias de encantar; menos medos... alguns receios... Quem não os tem?
Tenho dado passos difíceis mas que graça teria a vida sem os dar? Sobrevive-se, tal como este meu pequeno lugar... Apenas incomoda-me ter um rosto para lá deste sítio em alguns olhos que me possam ler... A vida (interior) devassada. Sim, incomoda-me o não total anonimato... porque poderei medir palavras que não se medem; porque resistirei guardar outras e assim perder o que provavelmente tem ficado apenas em mim. Mas não gosto do efémero, como disse... Espero continuar por aqui. Porquê? Não sei. É um lugar meu no qual quero ficar. Que me baste a vontade como me tem bastado a coragem!


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3 de Maio de 2008

10:00


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29 de Abril de 2008

Sem palavras...

Às vezes as palavras cansam-me. Outras vezes são dedilhados límpidos que vão desenrolando sentimentos em improvisos num qualquer momento reflexivo. Mas de facto outros momentos existem em que parecem esgotar-se e difundir-se num ruído crescente e surdo. Impaciente torna-se o raciocínio, com a estúpida pressa em criar significados capazes de fotografarem fragmentos. Nada nasce. A tristeza sempre foi mais comunicativa em mim. As palavras do silêncio, sempre brotam num ritmo doce a musica que não se ouve. Já a ausência do azul, ou o azul translúcido, incomoda-me; rouba-me as palavras e deixa-me num estranho vazio de caracteres, assim como os momentos sem cor ou simplesmente insípidos. São momentos mudos; umas vezes monótonos, outras sem rótulo... outras vezes, simplesmente sem palavras.


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7 de Abril de 2008

A ilha

Um dia parti. Construí uma jangada com restos de mágoas e lancei-me à solidão. De costas voltadas para o mundo inventei um cântico que me mantivesse os olhos secos e remei contra um horizonte inventado. Para trás ficava um mundo no qual não encontrava o meu lugar. Rodeei-me de nevoeiros intensos que me cegavam e me roubavam a vontade de continuar uma jornada sem destino; criei monstros que surgiam das profundezas dos meus maiores pesadelos e me consumiam a serenidade. Longas eram as noites... enfadonhos tornavam-se os dias.
Passadas águas de revolta avistei um lugar vazio. Tão vazio que o podia preencher por inteiro. Desembarquei. Sentei-me numa praia imaginária e procurei o mundo que deixara para trás. Sentia-o distante de mim. Era assim que o queria. Era assim que me tornara: só. Eu e mais ninguém. Eu e o meu mundo... Lá, residiam histórias fugazes de me encantar os sonhos; segredos demasiado secretos para ecoarem do outro lado do mar. A revolta habitava dentro de mim enquanto ninguém me ouvia cantar baixinho... à procura de um verso que me sossegasse o medo e me permitisse não ouvir as vozes do interior. Deixei-me rodear de dúvidas; de medos; de insatisfações; de vazios perpétuos que me ensinaram a viver comigo distante dos outros. Entre sonhos rabiscados nos pensamentos e a sua destruição antes que a esperança ganhasse asas em vão, aprendi que é assim que se morre nas mãos da solidão.
"Nenhum homem é uma ilha..." * Eu encontrei a minha... bem longe... a oceanos de distância do mundo, bem cá dentro de mim. Estou a fazer a viagem de regresso a casa. Na bagagem trago memórias vazias que me assustam perante um futuro incerto e o medo que as marés me levem de volta à minha ilha deserta do mundo palpita-me nas remadas. Contudo hoje sei que para mim, viver é navegar ao sabor dos sonhos, sempre com uma bandeira hasteada no centro da minha jangada, para me guiar amanhã pelas águas que estão por vir. Ir e voltar faz parte do trajecto... é parte da vida.

* Citação do filósofo Teilhard de Chardin.


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28 de Março de 2008

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